Só sinto não poder estar aí

 Mãe, está chegando o dia em que festejamos você!
Neste dia, todos os filhos estarão presentes,
Quer fisicamente, quer espiritualmente,
Abraçando-a, falando muito ou pouco com você;
Ou mesmo não falando nada,
Para simplesmente fitá-la
Com o amor e o carinho que só você merece.

Quantos irão lhe trazer presentes!...
Quantos irão lhe pedir presentes!...
Quantos irão se esquecer de lembrar de você!...

Eu estou aqui!...
Sempre estive... e sempre estarei aqui!...

Como gostaria de estar aí... para abraçá-la.
Como gostaria de estar ai... para acariciá-la.
Como gostaria de poder mirá-la, sem nada falar...
Como gostaria de estar aí!...
Como gostaria!...

Eu a tinha escolhido para ver sua barriga crescer;
Para ver você fazer todo o enxoval do futuro ser;
Para ver você sonhar...
Eu a tinha escolhido para sentir a vibração de sua voz,
Falando, cantando, sussurando para mim...
Eu a tinha escolhido para você ser a minha mãe...

Eu a tinha escolhido para você me colocar em seu colo,
Levar-me ao seu peito,
Incentivando-me a sugá-lo para me alimentar...
Eu a tinha escolhido para você cuidar de mim,
Trocar minhas fraldas, me banhar...

Eu a tinha escolhido para você me tornar
O ser mais feliz do mundo...
Eu a tinha escolhido para eu fazer de você
A mãe mais feliz do mundo...

Eu a tinha escolhido para me ensinar a dizer
m-a-m-â-e...
Para, talvez, me ensinar a dizer
p-a-p-a-i...
Eu a tinha escolhido!...

Eu a tinha escolhido para ver você se realizar
Com meus primeiros passos;
Para contar a todos sobre meu primeiro dentinho;
Para achar graça em minhas primeiras travessuras...
Eu a tinha escolhido!...

Eu a tinha escolhido para você ficar ao meu lado
No meu primeiro dia de aula;
Para aplaudir minha primeira apresentação
Em sua homenagem na escola;
Para elogiar minhas primeiras obras de arte.

Eu a tinha escolhido para ser a defensora incondicional,
Contra tudo e contra todos;
Para ter você sempre presente,
Ajudando-me em meus trabalhos escolares;
Para vibrar mais do que eu
Quando de minha primeira formatura;
Para entrar em delírio comigo
Quando eu entrasse numa faculdade...

Eu a tinha escolhido para ser minha primeira cliente...
E levar suas amigas para serem também minhas clientes...
Eu a tinha escolhido para ser a segunda mãe
De minha cara metade...
Eu a tinha escolhido para ser a melhor avó do mundo
Quando eu tivesse meu primeiro filho...
Eu a tinha escolhido!...

Eu a tinha escolhido para cuidar de você
Quando as forças começassem a lhe faltar...
Ter paciência com você,
Quando todos já a tivessem perdido...
Para estar com você
Quando você fosse fazer sua última viagem...
Eu a tinha escolhido!...

Paciência...
Você não me quis...
Paciência... Você optou  por me tirar...
Entendo que você possa ter tido suas razões...
Você era ainda tão jovem, tão imatura!...
Entendo que a pressão sofrida possa ter sido muito forte...
Paciência...

Eu estou bem!...
Só sinto não poder estar aí para estar com você...
Só sinto não poder estar aí...
Para homenageá-la como você merece...
Só sinto não poder estar aí...
Para dar-lhe um abraço bem apertado,
Um beijo, um presente...

Eu estou bem!...
Só sinto não poder estar aí...

Rodolfo Lopes (abril de 2003)

Texto publicado:
Clube Amigos das Letras – Pág. 78 à 80
Antologia: Retratos de mãe de 2003. 


Antologia: Retratos de mãe de 2003. 

Tudo

 Tudo que nos rodeia
Não está ali por acaso,
Mas para nos fazer pensar
Para nos fazer meditar.

Aquela pedra que insiste
Em aparecer na nossa retina
Está querendo nos fazer lembrar
O valor e a necessidade da paciência.

Aquela paisagem que entrevemos
Pela fresta da janela
Está lá para nos lembrar
Que ela não é tudo, existe o infinito.

Aquela flor silvestre que aparece
No meio do verde do campo
Faz-nos entender que a beleza
É feita de pequenos detalhes.

O lírio que floresce da lama
Branco, imaculado, nos diz
Que podemos ser puros
Apesar do local em que vivamos.

Nosso animal de estimação
Que tantas vezes é maltratado
Mas que não nos abandona.. e espera
Diz-nos que alguém nos ama, apesar...

Não estamos aqui por acaso,
Senão para aprender, para evoluir.
Só quando damos atenção a tudo
É que estamos fazendo algo por nós.

Rodolfo Lopes (19/09/2003)

Uma Criança Nasceu

 
Uma criança nasceu!
Espero que tenha sido o Cristo do Amor
que veio ao mundo uma vez mais,
conclamando-nos a sermos irmãos,
conclamando-nos a praticarmos o perdão,
a elegermos a solidariedade e a caridade do cuidar
como os valores maiores da vida,
não a caridade da esmola, efêmera, fria,
da fuga da consciência, aquela que nada acrescenta,
mas sim a caridade do amor, o amor incondicional,
o verdadeiro amor, aquele que Cristo nos ensinou.

Uma criança nasceu!
Foi um novo ano que teve início.
Ele já trouxe em si o DNA do antecessor:
Trouxe a violência, trouxe o desamor,
Trouxe a incompreensão, o preconceito,
a intolerância racial, política, econômica, religiosa.
Já nasceu promovendo guerras,
Guerras que se justificam na intolerância religiosa,
Guerras que atribuem a Deus sua motivação
de dominação, de imposição, de subjugação!
Quando a humanidade irá abandonar o desamor?
Quando a humanidade irá nos trazer a Paz e o Amor?

É preciso mudar!
É preciso repensar o mundo! 
Qualquer mudança só pode acontecer
quando começarmos a mudar nós mesmos.

Rodolfo Lopes

Escrito em 03 de janeiro de 2007 e publicado aqui no dia 05 de janeiro de 2007

Uma palavra…um olhar

 Uma palavra,
um gesto,
um sorriso,
um olhar...

E, de novo, está o coração apaixonado.
A razão se desfaz, a insensatez toma conta
Porque a paixão à inconsequente, avassaladora.
E domina por completo todo o nosso ser.

O desejo,
o estar-junto,
a entrega,
o aconchego,

À o desejo de possuir e de ser possuído,
De sempre ter o objeto do desejo: o outro ser.
De poder estar sempre junto, de encantar-se...
Mas paixão não é amor, ainda não sublimou...

A ausência,
a renúncia,
a submissão
a serviência...

Paixão só se torna em amor quando a felicidade
Do ser amado é mais importante que a nossa própria,
Quando abrimos mão de nossa individualidade por ele...
Só então a paixão se transmuta em amor puro, eterno.

Rodolfo Lopes

Escrito em 12 de junho de 2007 e publicado aqui no mesmo dia por ocasião do “Dia dos Namorados”

Entardecer

 E
ali,
quando
entardece...
O fogão de lenha,
uma luz de lamparina,
a prosa, os causos do dia,
adormecer com as galinhas,
os grilos, os sapos, a coruja...
Madrugada, o canto do galo...
Pular da cama antes do sol,
almoçar quando a cidade
começa a se despertar,
um café na tarde,
jantar cedo,
parar...
ser.


E
aqui,
quando
entardece... 

Rodolfo Lopes

Encontro

 Duas pessoas estavam andando por aí, soltas,
Sem destino, sem motivo, sozinhas, absortas,
Quando aconteceu de, sem nenhum aviso prévio,
Ao passarem em frente á entrada  de um prédio,
O olhar de uma delas cruzar com o outro olhar.
Seus olhos param para se falarem num longo olhar.
Dizem-se o que diriam mil palavras sem nada falar.
Fazem juras, fazem mil planos, fazem confidências,
Trocam as vivências havidas em suas existências.
Apesar de nunca terem se encontrado antes
Desde a eternidade, eles se sabem amantes,
A alma metade que reencontrou seu complemento.
Fazem, no silêncio de um simples olhar, um juramento
De seu eterno bem querer, de seu amor eterno.

Rodolfo Lopes (05/11/2002)

Ela

 Ela...
sabe, aquela
que frequenta a tela
de meus sonhos,
e que, por ela, são sempre risonhos?

Ela veio...
Não sei a razão, nem por que meio,
só sei que ela veio...
Ela apareceu na multidão
e fez disparar meu coração,
que incendiou-se de paixão.

Ela veio... e me amou...
Nunca pensei acontecer
de ela também me querer...
Então gostávamos de ficar
longo tempo ao luar,
falando do nosso modo de amar,
até que um dia meu mundo desabou...

Ela veio, me amou... e se foi...
Um dia a esperei... e muitos outros depois...
mas nada de ela aparecer...
Então, inconformado, tive de aceitar
que ela havia deixado de me querer...
que ela tinha decidido me abandonar,
deixando-me triste, desesperado,
com o coração despedaçado.

Ela veio, me amou, se foi... mas ainda ficou...
Sua lembrança queima mais meu coração
do que a lava incandescente de um vulcão...
A chama de sua presença me marcou...
Meu pobre coração só continua batendo
porque ele ainda continua crendo
que ela nunca deixou de me amar,
que ela, um dia, ainda irá voltar.

Ela veio, me amou, se foi... mas um dia irá voltar...


Rodolfo Lopes [1969]

Comete Suicídio

 Comete suicídio o ser que passa pela vida
sem saber a que veio, sem ter um norte;
comete suicídio o ser que passa pela vida
pensando que tudo é uma questão de sorte;
comete suicídio o ser que passa pela vida
inerte, só cultivando o medo da morte.

Comete suicídio o ser que sai cedo de casa
e nada aprende a cada dia, em qualquer idade;
comete suicídio o ser que sai cedo de casa
para ir repetir sempre a mesma atividade;
comete suicídio o ser que sai cedo de casa
sabendo que vai atrás da infelicidade.

Comete suicídio o ser que só vê o tempo passar
mas não tem tempo de se ver internamente;
comete suicídio o ser que só vê o tempo passar
e cerra o mais que pode os olhos da mente;
comete suicídio o ser que só vê o tempo passar
e não tem tempo para viver intensamente.

Comete suicídio o ser que aceita cegamente
que contratempo faz parte do seu destino;
comete suicídio o ser que aceita cegamente
que ele não tem o poder de mudar sua rotina;
comete suicídio o ser que aceita cegamente
que uma derrota é parte de um castigo divino.

Comete suicídio o ser que não faz nada,
preocupado com o que dele podem pensar;
comete suicídio o ser que não faz nada
por medo de errar,  por medo de pecar;
comete suicídio o ser que não faz nada
e chega ao fim sem nada ter, nada levar .

Comete suicídio o ser que passa pela vida
sem saber a que veio, sem ter um norte;
comete suicídio o ser que passa pela vida
pensando que tudo é uma questão de sorte;
comete suicídio o ser que passa pela vida
inerte, só esperando pela hora da morte.

Rodolfo Lopes

Ciclos Momentos e Recomeços

 ***
    Uma palavra,
    um gesto,
    um sorriso,
    um olhar...

    E, de novo, está o coração apaixonado.
    A razão se desfaz, a insensatez toma conta
    Porque a paixão é inconsequente, avassaladora.
    E domina por completo todo o nosso ser.

    ***

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